sábado, 21 de novembro de 2009

Somos gratos pela dor?


“Quem não foi ferido, zomba de cicatrizes”. (William Shakespeare)

Poucos são os que têm coragem de aprender com a dor. A sociedade moderna conspira contra qualquer tipo de dor. Ao menor sinal dela, temos um impressionante número de remédios para silenciá-la. Falta-nos o aprendizado que vem do gemido. Duas guerras mundiais, imagens bizarras, grotescas, doenças como “heranças” de nossas peripécias científicas, e, mesmo assim, ainda não paramos para ouvir os alarmes dessa professora do existir.

As lições da dor são as mais incríveis e intensas. Com a crise, aprendemos a dolorosa lição do limite: não somos perfeitos! Temos a consciência de que não é o fato de cobrar de mim o desempenho industrial de uma máquina que me transformará num ser robotizado. Preciso aprender a escutar o grito abafado do meu corpo clamando por uma noite de sono, um abraço ou um pedaço de pão.

Com a dor, aprendemos a amarga lição da decepção: nem todo mundo é digno de minha confiança. Serei traído – se não pelos outros, por mim mesmo – terei sempre de lembrar do conselho de Sócrates: “sê fiel a ti mesmo, e não poderás ser falso com ninguém”. Decepções ensinam a preservação dos que merecem um lugar em meu carinho. Ensinam que preciso fazer uma leitura humana que vá além das faces propostas, configuradas e belas. Ensinam o quanto é preciso um amigo.

Com a dor, aprendemos a sagrada libertação das verdades da alma: os grandes poetas, artistas, músicos, libertavam-se em tempos de crise. Atormentados pela dor produziram pérolas da interioridade artística. Poesias tinham como matéria-prima as lágrimas e os olhos vermelhos. Pinturas e esculturas nasceram após noites monstruosas de delírio e solidão. Músicas esplêndidas surgiram de soluços inexprimíveis. Ideias fascinantes foram produtos de indivíduos à beira de um colapso nervoso. A lagarta precede a borboleta fascinante.

Águias que voam também precisam pousar. Quando assimilamos as lições magníficas da dor, entendemos o chão do pouso não mais como o terreno frio das prostrações e frustrações, mas como o lugar maravilhoso do descanso. Em cada novo bater de asas, incríveis sensações. Novos horizontes se abrem para os que entendem que voar é sempre arriscado. Mas também é apaixonante!

Revolucionar a dor é sorrir do próprio fracasso. É enxugar as lágrimas, respirar fundo. Levantar-se do chão da inércia. Dizer a si mesmo que a história se faz caminhando, cruz-ando fronteiras. É torcer o pescoço da melancolia. Espancar a autocomiseração. É compreender o jogo da vida – e surpreendê-la. Poder dominar as garras da angústia e entoar o hino dos humanos.

Depois das tempestades, o ar é mais puro. Depois da longa noite, a manhã invade o calendário. Depois da dor, o abraço quente da certeza feliz de que é bom começar de novo. Agradeça às suas dores, pois, em cada uma delas, somos vence-dores!

“A dor é a marca da mortalidade”. (Dr. Paul Brand)

Até mais...

Alan Brizotti

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

No dia em que eu temer...


"Até quando, ó Senhor ? Esquecer-te-ás de mim para sempre ? Até quando esconderás de mim o teu rosto ?" ( Sl. 13.1 )

Temor não é o medo de Deus, é o medo de sua ausência. O verso do Salmo de Davi é cheio de dor. É repleto de uma angústia que insiste em pintar de roxo as telas da existência. Há dias em que até Deus parece ausente. Nesses momentos de dor a gente se solidariza com as páginas molhadas de lágrimas. O gemido passa a ser íntimo, habita nossas entranhas.

A Bíblia é repleta de gente assim. É a sofrida Ana que luta com as palavras, mas perde a batalha - emite apenas gemidos. É José vivendo a terrível experiência de ser vendido, negociado como mercadoria pelos próprios irmãos - a família perde o encanto. Neemias que ouve o relato triste de que sua terra natal vive da vergonha e do caos - o passado de glória se reduz a um monturo de entulhos. Davi que chega ao ponto de desabafar: "Até quando ?"
Fernando Pessoa, poeta português, certa vez escreveu: "Minha alma partiu-se como um vaso vazio. Caiu das mãos da criada descuidada". A noite escura da vida parece ser muito mais longa do que o dia. Entretanto, o dia brilha, o sol não tira férias. Não existe noite eterna enquanto vivermos. O sol sempre rompe as trevas e vence. Mesmo nos dias em que a tempestade pinta o céu de um cinza tenebroso, o manto azul sempre surge. A cadência da vida é feita assim, uma nuvem hoje, sol amanhã. Inverno, verão. A constante dança das alternâncias.

Ana aprendeu essa lição e o sorriso de Deus a brindou com um filho. José classificou sua dor como providência divina: "...conservação da vida" (Gn.45.5). Neemias usou todo seu potencial de liderança e transformou a tragédia de sua cidade natal em uma tremenda história de renovação. Davi termina o Salmo 13 assim: "Cantarei ao Senhor, pois me tem feito muito bem". Talvez, nosso grande erro seja não ter essa percepção de que Deus é o supremo guia de nossa história. Não precisamos ser viciados em triunfos, às vezes, Deus se esconde na feiura da crise.

Como disse o poeta John Donne: "Assim como me deste um arrependimento do qual não me arrependo, dá-me, ó Senhor, um temor que eu não precise temer". Que assim seja !

Até mais...

Alan Brizotti

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O mal de Procusto


A terrível doença dos que não suportam as diferenças

Procusto, segundo a mitologia grega, era um famoso salteador que agia entre Mégara e Atenas. Atacava os viajantes, despojava-os de seus bens e submetia-os a cruel suplício. Forçava-os a se deitarem em um leito que nunca se ajustava ao seu tamanho. Cortava as pernas dos que excediam a medida e, por meio de cordas, esticava os que não a atingiam. Ficou conhecido como "aquele que estende". Essa faceta trágica por trás de uma "hospitalidade" ilusória ainda é encontrada em muita gente na conturbada atualidade.

O mal de Procusto é encontrado nos esforços para anular todas as diferenças. É preciso entender que existem diferenças que podem e precisam ser, equilibradamente, celebradas. Infelizmente, grande parte da igreja hodierna carrega neuroses em relação ao diferente. É comum encontrarmos pessoas estigmatizadas por suas diferenças: mães solteiras, viúvas, pobres, ou até mesmo, as diferenças geradas pelas guerras das denominações, o conflito imposto pelos adeptos de "novas" visões, das teologias asfixiantes do legalismo. Diferenças que geraram traumas, marcas profundas, feridas na alma.

A base para a celebração das diferenças está no respeito, na ética que eleva o outro e o recebe como amigo na alma. Existem diferenças fundamentais que precisam ser combatidas por causa do mal que trazem, como por exemplo, a mentalidade racista, preconceituosa, os desvios de caráter que podem comprometer a saúde da alma. Diferenças letais. Não são essas diferenças doentias que quero abordar, mas as sadias, aquelas que nos conferem singularidade, e por isso mesmo estão sendo novamente roubadas pelo mal de Procusto.

Procusto hoje é o radicalismo do "é assim que é, e pronto!" É a tendência de "esticar e cortar" o que destoa do meu modo de ver a vida até que o indivíduo tenha a cara que eu quero. Quando a igreja age assim, adultera o sentido bíblico do Cristo - ele celebrava as diferenças! Basta olhar o grupo de discípulos que ele escolhe: de trabalhadores a cobrador de impostos, gente das diferenças. Gente escolhida não por ser uma eterna igualdade da massa informe, mas por ter a capacidade de ser-quem-é.

Na atualidade, há uma gama enorme de pessoas marcadas, gente com uma história de dor pra contar. Essas pessoas foram à igreja em busca de abrigo e descanso para a alma, mas encontraram a terrível cama de ferro do legalismo e o Procusto das teologias ditatoriais. Deus não instituiu uma máfia eclesiástica, Ele instituiu uma igreja - gente simples celebrando as diferenças em amor.

A igreja é feita das diferenças. Famílias diferentes, de lugares diferentes, com problemas diferentes - ninguém é igual. O que precisamos aprender com Cristo - o Mestre da sociabilidade - é a virtude de enxergar o outro como irmão e ajudá-lo a crescer independentemente de sua formação, posição social (o lixo das diferenças de classe) ou a cor da pele. A igreja pode celebrar as diferenças porque Cristo as celebra.

Procusto, segundo a mitologia, foi morto por Teseu, que infligiu-lhe o mesmo martírio que ele infligia às pessoas. O que aprendemos aqui é que a "Lei da Semeadura" (o que plantarmos, colheremos) também se aplica a esse comportamento. Aqueles que atropelam as diferenças serão atropelados por elas mais tarde.

Que Deus nos ajude a celebrar diferenças, a "suportar uns aos outros em amor" (Ef.4.2), e crescer em unidade, intimidade e carisma. Somente assim poderemos ganhar as nações para o abraço de Cristo.
Até mais...

Alan Brizotti

domingo, 8 de novembro de 2009

Esperando em Deus na sociedade da pressa


“Quem espera por algo que já tem?” (Rm. 8.24)

Um poeta disse: “Esperar é o tormento do desejo”. Se existe algo difícil de suportar é a espera. Ela trabalha junto com o vulcão da ansiedade, com o desespero do tempo, com a angústia da expectativa. Não é fácil viver uma espera. Isso exige grande dose de paciência, compromisso, determinação. Acredito que o esperar é um dos grandes desafios do homem do século XXI, pois a síndrome do imediatismo tem atropelado os sonhos de muita gente. Vivemos na sociedade da pressa.

Qual seria a dor de uma espera? A realidade, a insistente demora do relógio ou a desconfiança? Talvez, um pouco disso tudo e uma pitada de pessimismo que sempre acompanha nossas aventuras pelos vales do desconhecido. Observe como as pessoas encaram a espera. Reféns da ilusão cronológica, alguns inventam um jogo novo, outros falam sozinhos, folheiam qualquer papel que contenha algo escrito, comem desesperadamente, olham compulsivamente para o relógio, andam de um lado para o outro, dilaceram as próprias unhas, assistem a qualquer tipo de programa televisivo...

Por outro lado, a dimensão do “esperar no Senhor”, implica em uma nova visão da própria espera. Ela não vem com a ansiedade porque o próprio Cristo nos ensinou a lançar sobre ele todas as nossas ansiedades (I Pe. 5.7); não carecemos de meios mirabolantes de distração pois o tempo não tem mais a face cruel de um “carcereiro das emoções”, mas agora, é apenas parte do próprio trabalho de Deus: “É ele quem muda os tempos e as horas” (Dn. 2.21). Não precisamos mais do desespero de falar sozinhos, pois a veia da comunicação está aberta e plena de possibilidades: “Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim” (Lc. 18.38).

Quando nossa mente se abre para essa dimensão, o esperar se torna uma dádiva pois, cada minuto se torna experiência, cada pequeno espetáculo da graça um mosaico, um memorial da fé, um presente do Eterno. Deus nos educa nessa espera bendita em que aprendemos que não é o tempo que teima em nos desafiar, mas Deus, o Senhor absoluto do tempo é quem nos leva ao encontro das grandes virtudes da fé. O tempo é parte fundamental da pedagogia de Deus.

Minha oração é: “Senhor, quero aprender a esperar em ti; aprender que a demora não significa esquecimento, mas providência, instrução, libertação das garras da sociedade da pressa. Quero aprender a observar cada uma das maravilhas que teu amor ministra a cada minuto”.

Apocalipse 22.12 é perfeito: “Eis que venho sem demora”. Jesus tira a demora da espera, para que descansemos em sua paz, na segurança de seu retorno!


Até mais... (sem pressa)

Alan Brizotti

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Como está o seu olhar?


“Com os ouvidos eu ouvira falar de ti, mas agora te veem os meus olhos”. (Jó 42. 5)

Um poeta disse: “Se eu morrer, morre comigo certo modo de ver”. Costumamos banalizar o olhar. Por causa dessa banalização, acabamos “olhando sem olhar”. Acabamos “vendo não vendo”. Todos os dias olhamos as pessoas de nossa família, mas será que ainda conseguimos vê-las? A rotina é a cegueira dos que acostumaram a olhar sem ver.

Costumamos levantar pela manhã e olhar no espelho, mas muito raramente, pensamos no próprio rosto. De tanto olhar, já não vemos. O costume mancha a visão, diminui sua intensidade. Saímos pela mesma porta, tomamos o mesmo ônibus, trabalhamos no mesmo escritório, mas perdemos o espetáculo da vida.

Quando saímos à rua com uma criança, o que acontece é surpreendente! A criança vê tudo. Ela consegue ver o cachorro todas as vezes em que aparece. Ela vê as pessoas, os carros, os brinquedos, vê o que o mundo adulto atropela na loucura dos homens. Vê sem a banalidade adulta. Sem o pecado do empobrecimento do cotidiano. Sem a perda do encanto.

Precisamos restaurar o olhar nosso de cada dia. Pais precisam olhar novamente os seus filhos e despertar para o milagre de suas vidas. Casais precisam redescobrir o olhar apaixonado que viu estrelas e pássaros, que bailou à luz do luar. Pastores precisam olhar para suas ovelhas e amar com toda a intensidade que esse sentimento permite. A luta contra o mal da indiferença começa com a cura do olhar, um olhar cheio de espera, interesse pelo outro, carisma. Olhar curado é olhar que se oferece como cidade de refúgio, porto seguro, festa de amor pra quem está no luto da rotina e do marasmo.

Jesus olhava as multidões. Ele via as pessoas. Precisamos aprender com o dono do olhar mais penetrante que a história já viu. O olhar banalizado é a pérola jogada aos porcos, é a dádiva esquecida, é a vitrine espatifada, a dor de uma cegueira muito mais cruel porque é produto de uma alma cega. Aliás, há cegos que enxergam muito mais do que os que ainda têm visão. Ver, não é fruto apenas do que os nossos olhos podem atingir, mas daquilo que as nossas almas alcançam. É nunca perder a luz, pois como disse Jesus: "Os olhos são a lâmpada do corpo" (Mt. 6. 23).

Qual é o seu “certo modo de ver?” Deus quer curar nosso olhar. Seu desejo é de que ele seja o fruto de uma espiritualidade mais nobre, uma generosidade que não se esquece. Que nossos olhos não sejam cobertos pela poeira da banalidade hodierna.

Que o colírio da Palavra de Deus esteja sempre lubrificando o olhar nosso de cada dia.


Até mais...

Alan Brizotti

O princípio de Jó


“...Ainda conservas a tua integridade?” (Jó 2.9)

Um homem num leito de hospital, desenganado, com apenas alguns dias de vida. O câncer, já em metástase, cumpre sua cruel missão: “Eu odeio Deus!” bradou com tamanha raiva que seus olhos vestiram um vermelho tenebroso.

Uma senhora judia, sobrevivente de um campo de concentração nazista, quando perguntada sobre a existência de Deus, replicou: “Se existiu Auschwitz não pode existir Deus”.

Um renomado diretor teatral, num programa de entrevistas na TV aberta disse: “Deus é a tragédia otimista”.

Retratos do caos da alma em dias de pós-­modernidade. À luz da mulher de Jó, o homem pós­moderno grita: “... amaldiçoa teu Deus e morre!” Almas em revolta. Conforme os dias passam, a humanidade segue alimentando sua ira contra Deus. O sentimento que impera hoje não é o amor a Deus ou o medo de Deus, mas a indiferença. Esses sentimentos contra o Eterno vêm tatuados de agonia, estigmatizados com a afirmação: “Não precisamos de Deus”. O medo do homem de hoje é o medo de prestar contas. É a presença marcante do Salmo 14.

O sentimento de Jó ainda vale a pena. Jó entra para a história não somente por suportar a tribulação, nem tampouco por não blasfemar. Ele entra para a história por amar a Deus, até mesmo em sua pior dor. Pelo feito incrível de ter transformado sua provação numa glória para Deus. Ele enxerga Deus no cerne de sua crise: “... recebemos o bem de Deus, e não receberemos o mal?” (Jó 2.10). Consegue distinguir os rastros de Deus no ciclone que destruía seus sonhos. A fé e o amor de Jó se transformaram num fantástico testemunho para as gerações, no poema de Deus na história, na bela investigação sobre a condição humana.

Um dos primeiros bispos da história da igreja, Inácio de Antioquia, sentindo que seria martirizado por causa de sua fé, escreveu uma carta para a sua igreja: “Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de me moer para que eu seja apresentado como vivo pão de Cristo”.
O lema missionário da poderosa comunidade dos Morávios, surgiu quando dois jovens se venderam como escravos para entrarem numa determinada região a fim de pregarem o Evangelho: “O cordeiro de Deus é digno!” Retratos dos que seguem o “princípio de Jó”.

Saramago à parte, prefiro Deus!


Até mais...

Alan Brizotti.

sábado, 24 de outubro de 2009

Ruth Doris Lemos: simplesmente exemplo!


Cheguei ao IBAD (Instituto Bíblico das Assembleias de Deus), em Pindamonhangaba, São Paulo, em 1997, prestes a completar 18 anos. Nem compreendia direito o que estava acontecendo em minha vida. Apenas entendia a importância de estar no seminário teológico mais famoso das Assembleias de Deus no Brasil. Ainda lembro bem daquela sensação. Olhei bem para aquela construção à época, inacabada. Meu quarto, os companheiros, o refeitório, sala de oração, biblioteca. Quem já passou pelo IBAD jamais esquece.

Tenho a honra de poder afirmar: fui aluno da Missionária Ruth Doris Lemos. Lembro das matérias que mais marcaram: hermenêutica, missões, exegese. Ela sentava e, como os grandes mestres fazem, encantava. Numa das aulas, a irmã Doris pediu uma redação sobre Pedro e sua mensagem no dia do derramamento do Espírito. Escrevi e, mudei de vida! Ela, ao ler minha redação, jamais esquecerei aquele momento, olhou fundo em meus olhos e disse: "Você tem a mente de um escritor, não pare de escrever".

Não consegui dormir naquela noite. A fala da irmã Doris se configurou num poderoso chamado do Espírito. Os anos passaram e, hoje, estou no quarto livro escrito, e dois em fase de acabamento. Ainda guardo meus cadernos do tempo de IBAD. Hoje, peguei alguns e folheando, encontrei as matérias que a irmã Doris ministrou. Aulas que marcaram profundamente minha vida.

Sou imensamente grato a Deus pelo privilégio de ter sido aluno da irmã Doris e do Pastor Kolenda. Mentores que me inspiram a prosseguir. Num mundo tão carente de referenciais, tenho a alegria de poder afirmar: Pastor João Kolenda Lemos e Missionária Ruth Doris Lemos têm imensa importância em minha história.

Obrigado irmã Doris! Seu legado é eterno. Como disse Rubem Alves: "Quando se ama um mestre, procura-se saber o que ele sabe, pois sabendo o que ele sabe, temos uma maneira de estar sempre com ele".

Alan Brizotti

sábado, 17 de outubro de 2009

Raabe


Encanta-me a forma bela como Deus des-constrói. Israel e Jericó. Cenário de guerra, com todas as suas implicações. A tensão característica que os tempos nublados possuem. De um lado, a nação israelita, seu general e suas promessas. Do outro, uma mulher obscura, seu passado e sua fé. Ingredientes explosivos para a mistura nebulosa das contradições. Porém, nesse caldeirão efervescente, doses clássicas da graça darão outro sabor.

Raabe é um desses pequenos seres desenhados para existir entre a estabilidade e o caos que os cercam. Umas dessas obras de arte tecidas pelos fios entrelaçados das crises e dos contrastes. Na narrativa bíblica, ela aparece sempre acompanhada da etiqueta dos desajustados: "meretriz". Vem com uma marca. Tatuada pelo avesso de uma sociedade. Prostituta. Um objeto do prazer. Brinquedo sexual. Contudo, é através dela que Israel encontrará o atalho para a posse da terra dos sonhos. Moralistas de plantão arrepiam-se com o tipo de vaso que Deus escolhe para o lugar de destaque.

Amo essa clandestinidade divina. Deus, nesse episódio está "oculto" nas tramas estranhas do engano, da prostituição e da morte. Uma meretriz que engana seu rei e contribui diretamente para a morte de milhares em sua própria terra. Como pode um enredo sangrento assim revelar o Deus de toda a delicadeza? Para mim esse episódio é libertador! Deus usa imperfeitos como eu.

O sinal que Raabe usa para identificar-se ao exército israelita na tomada da terra é um fio de escarlata (Js. 2. 18), uma singela associação bíblica, quase imperceptível com o Cristo que virá. Milênios depois de Raabe, O Cristo vem andando pelas mesmas redondezas dos marcados: leprosos, publicanos, pobres e... meretrizes! A escarlata ainda identifica imperfeitos movidos pela fé. Não bastasse isso, Raabe retorna, dessa vez, na genealogia do Cristo (Mt. 1. 5), assinalando a universalidade da Promessa: o Messias judeu tem sangue gentio e revoltado, tem a marca dos oprimidos.

A cidade é tomada e Raabe, salva. Ela ganha vida no momento em que a morte apresenta-se. Ela redime sua própria história através de sua fé. Num ambiente de pecaminosidade e fúria, deixa nascer em si a leveza da graça que des-constrói sua história de pecados. Hebreus 11. 31 avisa que Raabe recebeu uma nova marca: "pela fé", apesar do texto ainda lembrar da antiga: "meretriz". Raabe agora desenha um novo padrão: passado e fé, a redenção das lembranças.

Obrigado, Raabe! Posso olhar para trás. Já não há feridas ocultas. Já não há marcas, estigmas, rótulos. "Pela fé" posso ser quem Deus quer que eu seja...


Até mais...
Alan Brizotti

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Encarando o medo!


“O medo é um gigante que se nutre da carência”. (Emilio Mira y López)

Alguém rabiscou num muro: “Viva sem medo de ser feliz”. Por que alguém teria medo da felicidade? Na verdade, o que a frase evoca não é a felicidade – ela é o fim a alcançar – mas o caminho, a construção, a via até ela. Poucos sentimentos são tão avassaladores quanto esse fantasma chamado medo. Ele vampiriza sonhos, é capaz de infectar com a suspeita os mais belos projetos existenciais. Decreta o fim das tentativas.

Há gente que nem consegue mais viver. O medo da vida ficou tão monstruoso que fez da casa, um cárcere. Gente isolada de todos, vivendo uma existência dolorosa, uma desrealização humana. Gente que se contenta em ver a vida através do cinza dos vidros. Das janelas fechadas, do carro blindado, da fuga pela televisão, onde a vida não sai da tela, não tem expressão real. Gente com medo de ser.

Não se iluda. Não é fácil encarar o medo. Se você grita, ele grita de volta. Produz ecos de um caos que nos habita. O medo conhece como ninguém os meandros de nossa intimidade fragilizada. Mas, há uma chance. Não é fácil, mas é perfeitamente possível! Encarar o medo implica em subjugá-lo. Espancá-lo. Domesticá-lo. Você não vai destruí-lo completamente, não, ele é indestrutível, mas, saiba, você pode domá-lo. É possível mantê-lo amordaçado.

Quando temos coragem de afirmar: “Eu tenho medo”, ele começa a ceder. Ele é “o gigante que se nutre da carência”, portanto, a consciência de sua utilidade (como mecanismo de defesa, é muito bem-vindo), é capaz de derrubar seus castelos de poder, acabar com o reinado de seu orgulho. O medo tem medo de não assustar!

Proponho uma troca: trocar os arrepios, a face paralisada, as mãos trêmulas, a voz vacilante, a sensação de desmaio por uma determinação em vencer, uma consciência de poder, uma certeza: tenho medo, mas ele não tem a mim! Quando essa troca acontecer, seremos dignos de viver como heróis da disposição, da coragem, da garra, da destreza, da competência, da vida. Heróis de uma humanidade que ousa.

Antes das águias aprenderem a voar, são empurradas de seus ninhos. Como os ninhos ficam em montanhas muito altas, o prazer de experimentar o poder das asas só vem com o medo da queda. Quer voar? Assuma o medo da queda. Tenha a consciência de que lá embaixo estará o duro chão. Mas, quando pousar, sentirá o indescritível prazer de zombar do medo que não te deixava usufruir do poder de suas asas magníficas.

Não posso te dizer para não ter medo, mas posso dizer: “Não deixe o medo te dominar”. Não se isole da vida, não faça de sua casa uma masmorra, de seu carro um casulo que impede a entrada do amor, não se destrua numa caverna psicológica onde, supostamente, o medo não te alcance. Não perca o prazer de voar só porque o chão existe. “Viva sem medo de ser feliz”. Acredite, o medo não possui o dom da eternidade. Ele também é perecível, também tem data de validade.
Alguém escreveu num muro em Osasco, São Paulo: “Descubra quem você é, e seja de propósito!”

Até mais...

Alan Brizotti


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Espiritualidade: para além do chão


Num tempo onde as pessoas costumam mirar o chão, quero enxergar as estrelas


Há dias em que perdemos o chamado "foco" da existência. São dias de luto no olhar, sombras na relação com a história. Porém, esses dias reservam surpresas que encontram os que ainda sonham. Tenho um compromisso pessoal com a excelência, um desejo cada vez mais abrangente de mirar horizontes desafiadores. Costumo chamar esse desejo de "convite às possibilidades", ou seja, dar voz ao grito pelo infinito que me habita.

Espiritualidade é um chamado às transformações. Esse chamado produz as mais íntimas e profundas revoluções que nosso ser pode esperar. É um chamado que ecoa, ao mesmo tempo, de dentro e de fora de nós mesmos. Um despertar da essência à existência, da casualidade à causalidade. É um vislumbre da vida de Deus em nossa humanidade, um salmo escrito na vida e na relação espaço/tempo.
A espiritualidade é a lente através da qual olho para cima e miro estrelas:

Quero enxergar as estrelas. Mirar o amanhã que flui do abraço de Deus. Espiritualidade é esse "querer o que Deus quer que eu queira", esse entendimento de que preciso consagrar a Deus o meu querer, converter os meus anseios em sonhos para a construção de uma história mais humanizada e humanizadora; abençoada e abençoadora; realizada e realizadora.

Quero enxergar as estrelas. Elevar minha alma além de toda a mediocridade que o mundo tenta me fazer abraçar. Direcionar meus ouvidos para a captação da melodia da graça, dos sons da generosidade divina. Guiar meus olhos para os alvos estabelecidos por Cristo para minha saga. Num tempo onde se conspira contra a intimidade, tempo de indiferença, quero enxergar nos outros a bênção da convivência, caminhos para o crescimento como sociedade, irmãos e amigos.

Quero enxergar as estrelas. Ainda que a escuridão das noites esteja gritando que a vida acabou, verei a beleza de um céu estrelado. Ainda que o deserto da vida esteja empoeirando minhas esperanças, levantarei os olhos e verei a mão que me guia, a mão do Eterno. Ainda que os predadores da alma estejam em "temporada de caça", voarei como águia na imensidão azul e perfeita do céu - lugar dos que amam a Deus.

Espiritualidade é caminho de transcendência porque nos eleva para o encontro das transformações, o abraço que muda o pranto em dança. Estar nesse caminho é acreditar em encontros de cura e bálsamo. Espiritualidade que transforma religiosidade vazia em transcendência absoluta; transforma as catedrais do medo em imponentes memoriais às certezas de que tudo veleja para o bem. Espiritualidade aprendida diretamente do Consolador, aquele que ensina com maestria a mágica arte de abraçar.

Minha busca é por uma espiritualidade que lapide meu interior vasculhando com esmero cada esquina que há em mim (Sl.139). Sonho com uma espiritualidade que restaure em meu ser as primeiras impressões postas por Deus ao me criar. Anseio, profundamente mudanças que me moldem no projeto original de Deus para mim e não nesse ser imperfeito no qual me tornei. Não tenho vergonha de admitir: sou imperfeito, mas busco o caminho da revolução pessoal (Mt.5.48).

Não quero ser um santo que fique preso às molduras da religiosidade tradicionalista ou legalista, quero ser um santo na vida, que transpira, chora, erra, peca, perde, sofre, mas é santo porque não desiste de tentar, porque não desiste de acreditar que a vida cristã não é coisa para os heróis, é coisa para nós (eu, você). Quero ser santo porque Deus é santo, e estou me esforçando para amá-lo (Lv.11.44). Espiritualidade é uma fantástica possibilidade existencial além da fantasia humana, além da dúvida filosófica, além da veloz modernidade e tecnologia, além dos nossos sonhos. É o milagre do finito tocando a eternidade.

Não quero ser um pensador de trivialidades, balbuciando dogmas ou fazendo bolhas teológicas sem nexo. Quero pensar as implicações da cruz nas fúrias do meu cotidiano brutal. Pensar verdades edificantes e transformadoras. Verdades que revelem Deus e sua santa Palavra. Verdades que contribuam para o crescimento e amadurecimento dessa geração que vive sem viver. Quero a voz sofrida, mas adocicada dos profetas (Ez.3.3), o prazer de me entregar como metáfora profética viva e vivificante. Quero lamentar, se preciso for, mas também ver minha geração edificando um altar ao Senhor.

Não quero ser um membro de igreja, quero ser igreja! Não quero ficar à margem da estrada vendo a caminhada cristã rumar para o Eterno, quero caminhar junto, servir de amparo aos meus irmãos enfraquecidos pelas turbulências (Lc.23.26), olhar para a frente e enxergar o horizonte estrelado que espera os que "se gastam e se deixam gastar pelo evangelho" (II Co.12.15). Quero querer.

Em tudo isso, na verdade, se esconde a espiritualidade - nessa caverna escura que existe em cada um de nós. Espiritualidade não é fruto da mentalidade mercadológica, é uma conquista diária, uma realização, um ideal a ser perseguido em nossas batalhas mais incríveis. É o cajado que nos consola, o farol que ilumina a escura noite da vida, a atração que nos conduz ao abraço eterno de Deus (Jr.31.3), como disse Agostinho, "Tu nos criaste para Ti mesmo, e nossos corações ficam desassossegados enquanto não descansarem em Ti".

Quero viver. Viver tão intensamente que possa marcar meu tempo histórico, deixar uma poesia existencial escrita, uma arte pintada nas telas do cotidiano, mensagem para a posteridade, um sinal de que "a graça de Deus ainda se aperfeiçoa em nossas fraquezas" (II Co.12.9).

Até mais...

Alan Brizotti
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